O silêncio fúnebre que se apoderou de todo o ambiente após a notícia do Cavaleiro Amarelo foi quebrado pelo comentário indignado de Diego.
- Por que nós temos que fazer alguma coisa para salvar o Rei?  Se ele sumiu, o problema é dele! A Cavalaria Real que cuide desse caso!
- Nós fazemos parte da Cavalaria Real, meu querido - interpelou Rodrigo.
- Mas ainda estamos em treinamento, manja. - justificou Filipe.
- Eu sei - Rodrigo continou - mas vocês prestaram atenção no que o nosso querido coleguinha Gustavo disse antes de partir rebolando?
- “Não”, responderam, em coro, os outros dois cavaleiros.
Rodrigo coçou a cabeça e suspirou: “Como eu imaginava…”
- Será que eu tenho que explicar tudo para vocês, ó nobres colegas cavaleiros?! Nós somos os HERÓIS dessa história! Temos a obrigação de salvar o Rei de seja lá o que for que aconteceu com ele. Se não o salvarmos, alguém salvará, e perderemos todo o crédito com as donzelinhas do reino.
Diego e Filipe pararam para refletir sobre este argumento. Parecia ser interessante e válido e, coçando o queixo, Diego respondeu:
- Desde quando temos algum crédito com alguma donzela do reino?

Irritado, Rodrigo girou sobre os calcanhares e partiu decidido em direção ao pátio da Escola Técnica de Cavaleiros. Diego olhou intrigado para Filipe, que deu de ombros e seguiu atrás de Rodrigo. Vendo seus dois nobres colegas seguirem em direção ao iminente perigo que os aguardava, Diego, mais uma vez, coçou o queixo com sua mão direita, afagando o fino e quase invisível cavanhaque que mantinha com muito cuidado, e pensou:
- Isso vai dar merda.

E partiu.

Um tímido raio de sol refletiu-se nas águas tranqüilas do lago Lago, atingindo em cheio o olho de um cavalo que adormecia próximo. Este, sem se perturbar com o incidente, virou-se para o outro lado e continuou a dormir tranqüilamente.


Era uma tarde linda e ensolarada de domingo. Pássaros voavam alegremente sob o azul intenso do céu, enquanto cavalos descansavam tranqüilamente em seus cochos, sem reparar no belo reflexo formado pelos raios solares nas águas serenas do lago Lago. Deitados a beira do mesmo, observando o movimento suave das árvores que, ao serem tocadas pela brisa leve e fresca daquela tarde agradável, pareciam dançar sob uma doce melodia que somente elas ouviam, estavam três jovens cavaleiros. Para eles, este era um merecido descanso após mais um dia de treinamentos árduos na ETC - Escola Técnica de Cavaleiros: a primeira escola formadora de cavaleiros de todo o Reino do Industrial.
Enquanto um deles cochilava, os outros conversavam.

- Gostou do treinamento de hoje?
- Foi sussa.
- Também achei. Mas, sei lá… Às vezes tenho a impressão de que não consigo aprender corretamente as técnicas…
- Manja, você é um dos melhores cavaleiros da escola nas matérias atléticas e humanas! Tá certo que você derrapa um pouco nas exatas… mas o resto compensa.
- Eu sei… Mas, sei lá, véi. Eu sequer consigo me decidir entre qual espada usar em um combate com um ogro de 2 metros…
- Isso é o de menos, manja. Eu também sou um fodido. Quase sempre me fodo nas matérias atléticas por causa da minha saúde, que é uma bosta. Mas a vida é assim, manja.
- Posso fazer uma observação?
- Claro.
- Não seria melhor se tivesse os nossos nomes no lugar do travessão? Suspeito que seria mais fácil do leitor nos identificar. :P
- Boa idéia. :P
Diego: Ah, agora melhorou. :P
Filipe: Só. :P

Rodrigo, o terceiro cavaleiro, despertou assustado do seu cochilo profundo, assustando seus colegas.

Diego: Que foi?!
Rodrigo: Amiguinhos, tive um sonho horrível…
Filipe: Sonho?
Rodrigo: Sim, meu caro coleguinha. Sabe aquilo que vemos quando estamos dormindo…
Filipe: Eu sei o que é, cacete! Quero saber que tipo de sonho.
Rodrigo: Sonhei que um dos nossos coleguinhas de turma viria correndo, neste exato momento, nos avisar sobre uma catástrofe que está para acontecer em nosso querido reino…
Diego: Mas qual colega?
Rodrigo: Aquele feliz e saltitante, todo de amarelo, que está correndo em nossa direção neste exato momento.

Estupefatos, Diego e Filipe olharam para a direção apontada por Rodrigo, avistando um cavaleiro franzino, de estatura média, vestindo uma reluzente e ofuscante armadura amarela. Ele corria desesperadamente na direção dos três cavaleiros gritando seus nomes:

- DIEGORODRIGOFILIPE!!!!!!!!! DIEGORODRIGOFILIPE!!!!!!!!! DIEGORODRIGOFILIPE!!!!!!!!!DIEGORODRIGOFILIPE!!!!!!!!!

Após alcançá-los, Diego, Rodrigo e Filipe tiveram de esperar por aproximadamente 5 minutos para o cavaleiro amarelo recuperar o fôlego e finalmente revelar o motivo de tanto desespero.

Rodrigo: O que houve, meu caro Gustavo?
Gustavo: Fodeu, galega!
Filipe: Conta logo o que aconteceu, manja!
Diego: Peraí. Antes de contar, repita comigo: “Cabaré”.
Respirando fundo, Gustavo repetiu: “Gabagué”.
Diego: Agora diga: “Trezentos e Trinta e Três”
Após mais uma respiração profunda, Gustavo, impaciente, repetiu: “Tguezentos e Tguinta e Tguês”.
Diego: Agora pode contar. :P
Gustavo: Eu não gosto disso, viu? Mas o negócio é séguio! O Rei Magalhães sumiu!

A expressão de espanto foi a mesma nos rostos dos três cavaleiros. Como era possível um rei sumir assim, do nada, dentro do seu próprio reino?

Diego: Como é possível um rei sumir assim, do nada, dentro do seu próprio reino?
Filipe: Você não perde a mania de plagiar o narrador. :P
Diego: Talvez porque o narrador e eu somos a mesma pessoa. :P
Rodrigo: Amigos, amigos… O problema apresentado pelo nosso colega amarelo é realmente grave e necessita de total atenção. Por favor, nobre colega Gustavo, repita comigo: “Sorocaba”.
Gustavo: Ah, vão se foder! Já dei o recado. Vocês são os hegóis da históguia, se viguem!

Dito isto, Gustavo, o cavaleigo amaguelo de língua pguesa, girou sobre os calcanhares e partiu com ar de missão cumprida. Sem saber o que dizer, os três cavaleiros mergulharam em um silêncio tão profundo que pareceu dominar todo o ambiente ao redor: os passáros haviam desaparecido em algum canto distante do céu; os cavalos continuavam a dormir e sequer perceberam que o belo reflexo nas águas do lago Lago também havia desaparecido. Até o sol, que antes brilhava imponente no céu límpido e azul, pediu ajuda para algumas nuvens e imediatamente se escondeu atrás delas, parecendo conhecer o futuro negro que aguardava nossos três heróis a partir daquele instante…